‘Somos todos racistas?’: O teste de Harvard que promete revelar preconceito implícito

‘Somos todos racistas?’: O teste de Harvard que promete revelar preconceito implícito

COMPARTILHAR
O Teste de Associação Implícita (IAT) é uma forma de identificar o preconceito implícito das pessoas (Foto: Getty Images)

Poucas pessoas admitiriam seu racismo abertamente, mas muitos psicólogos dizem que somos racistas mesmo sem a intenção de sê-lo. Nós teríamos o que eles chamam de “preconceito implícito”. O que é isso, como é medido e o que pode ser feito a respeito?

“Seus dados sugerem que você tem uma leve preferência automática por pessoas brancas em relação a pessoas negras”.

Esse não era o resultado que eu esperava. Então eu sou racista? Um intolerante? Isso seria bem diferente de como eu me vejo. Mas talvez seja algo que eu deva admitir e encarar de frente?

É que eu acabei de fazer o Teste de Associação Implícita (IAT), uma forma de identificar o preconceito implícito das pessoas. A prova não analisa apenas o preconceito de cor, mas também em relação a orientação sexual, deficiências e obesidade.

Segue uma breve descrição de como é um teste IAT, com base no de raça: aparecem palavras e rostos. As palavras podem ser positivas (como “maravilha”, “amizade”, “feliz” e “comemore”) ou negativas (como “dor”, “desprezo”, “sujo” e “desastre”). Em uma parte do processo, é preciso pressionar uma tecla toda vez em que você vir um rosto de uma pessoa negra ou uma palavra ruim e pressionar outra tecla quando aparecer um rosto de uma pessoa branca ou uma palavra boa.

Em seguida, o jogo vira: uma tecla para rostos negros e palavras boas e outra para rostos brancos e palavras ruins. É muita coisa para guardar na cabeça. E aí está a questão. Você precisa pressionar a tecla apropriada o mais rápido possível. O computador mede a sua velocidade.

Você pode fazer o teste aqui.

A ideia por trás do IAT é que alguns conceitos e categorias podem estar mais conectados nas nossas mentes do que outros. Podemos achar mais fácil, e portanto mais rápido, ligar rostos de pessoas negras a palavras ruins do que de pessoas brancas.

Nas últimas décadas, as estatísticas sobre preconceito explícito têm mudado rapidamente. Por exemplo, na Inglaterra dos anos 1980, 50% da população se dizia contra casamentos interraciais. Essa taxa caiu para 15% em 2011. Os Estados Unidos experimentaram uma mudança parecida. Em 1958, 94% dos americanos disseram desaprovar casamentos entre pessoas brancas e negras. Esse número caiu para 11% em 2013.

O Brasil, apesar da fama de miscigenação, tem poucos casamentos interraciais, segundo o Censo Demográfico de 2010 do IBGE. Cerca de 75% das pessoas que se identificam como brancas casam com outras brancas, 69% dos pardos vivem com pardos e 50% dos negros se casam com outras pessoas negras. Os homens que se identificam de “cor amarela” são os que mais se unem com mulheres de outra cor – 38% se casam com asiáticas, 29,2% com pardas, 22% com brancas e 9,8% com mulheres negras.

Mas o preconceito implícito – visões que alimentamos sem intenção – é muito mais aderente e difícil de erradicar. Ao menos esse é o preceito do teste.

O IAT, introduzido há duas décadas como uma maneira de medir o preconceito implícito, agora é usado em laboratórios no mundo inteiro. No site do Projeto Implícito de Harvard, o teste foi realizado quase 18 milhões de vezes. E há um padrão. O meu resultado não é único. No teste de raça, a maioria das pessoas demonstrou alguma inclinação a favor de brancos e contra negros. Elas conectam mais rapidamente rostos de pessoas negras a conceitos ruins do que rostos brancos – e mesmo as pessoas negras não são imunes a esse fenômeno.

O preconceito implícito foi usado para explicar, ao menos parcialmente, tudo, desde a eleição do presidente Donald Trump (preconceito implícito contra sua oponente mulher) até o número desproporcional de homens negros que são baleados pela polícia sem estar armados nos Estados Unidos.

A ideia de que a maioria de nós temos várias formas de preconceito implícito se tornou tão comum que foi até mencionada por Hillary Clinton durante um debate na campanha presidencial com Trump. “Eu acho que o preconceito implícito é um problema para todos”, disse ela.

Trump respondeu à frase uma semana depois. “No nosso debate na semana passada, ela acusou o país inteiro, sugerindo que absolutamente todo mundo, inclusive a polícia, é racista e tem preconceito. É algo ruim de se dizer”.

Poucos experimentos na psicologia social tiveram um impacto tão grande. Jules Holroyd, especialista no tema na Universidade de Sheffield, vê uma conexão entre o sucesso do teste e a sua explicação dos “motivos pelos quais várias formas de discriminação e exclusão persistem”.

Na última década, usar testes de associação implícita em treinamentos de diversidade virou rotina em grandes empresas. O objetivo é mostar à equipe, especialmente aqueles com o poder de contratar e promover, que mesmo sem saber, e apesar de suas melhores intenções, eles podem ter preconceitos.

Há um interesse óbvio por parte das empresas para eliminar o preconceito. Se você consegue impedir sua equipe de se comportar com preconceito e irracionalmente, você consegue contratar e promover o melhor talento. Menos preconceito implícito = mais lucros.

No entanto, praticamente tudo que sabemos sobre preconceito implícito é incerto, inclusive questões bastante fundamentais. Por exemplo, há um dissenso sobre quão inconscientes são esses estados da mente. Alguns psicólogos acreditam que temos consciência de nossos próprios preconceitos em alguma medida.

E há o próprio IAT. Há dois problemas com ele. O primeiro é o que os cientistas chamam de replicabilidade. Idealmente, um estudo que produz um certo resultado em uma segunda-feira deveria produzir o mesmo na terça. Mas, segundo Greg Mitchell, professor de Direito da Universidade de Virgínia, a replicabilidade do IAT é extremamente baixa.

Se o teste sugere que você tem um preconceito forte contra pessoas negras e “você o repete uma hora depois, você vai ter uma pontuação bem diferente”, diz ela. Um dos motivos para isso é que o seu resultado é sensível às circunstâncias em que você se encontra quando o faz. É possível que seu resultado varie dependendo se você o fez antes ou depois de um almoço saudável, por exemplo.

Também parece existir uma relação entre IAT e comportamento. Por exemplo, se o seu colega, Pessoa A, vai pior no IAT que outro colega, Pessoa B, seria imprudente concluir que a Pessoa A demonstrará um comportamento mais discriminatório no local de trabalho. Se há uma linha entre IAT e compotamento em geral, ela é tênue.

Defensores dizem que há uma correlação entre IAT e questões de comportamento. Naturalmente, o comportamento humano é bastante complexo, e somos influenciados por vários fatores, incluindo clima, humor e nível de açúcar no sangue. Mas todo dia milhões de decisões relacionadas a emprego, questões judiciais e qualificações de alunos são tomadas. Mesmo que poucas dessas decisões tenham sido afetadas por preconceito implícito, os números em geral seriam significativos.

Braços
Testes de associação implícita em treinamentos de diversidade viraram rotina em grandes empresas (Foto: Getty Images)

Nos últimos anos, especialistas contra e a favor do IAT competiram entre si com várias pesquisas. Um estudo observou pacientes brancos e negros com sintomas cardiovasculares: a questão era por que médicos frequentemente tratavam esses pacientes de maneira diferente. Pesquisadores descobriram uma relação entre o número de vezes em que médicos tratam pacientes diferentemente em relação a raça e sua pontução no IAT.

Outro estudo mostrou aos participantes imagens de rostos brancos e negros e em seguida imagens de armas ou outros objetos. A tarefa era identificar o mais rapidamente possível se o objeto mostrado era uma arma. E no fim das contas, as pessoas tendiam a identificar um objeto qualquer como uma arma quando haviam visto um rosto negro antes. E isso estava ligado ao teste: paticipantes com IAT baixo tendiam a cometer mais erros.

Mas os céticos em relação à ligação entre comportamento e o IAT citam outros estudos. Um experimento mostrou que policiais com performance ruim no IAT não tinham uma tendência maior a atirar contra suspeitos negros desarmados em relação a brancos, por exemplo.

Além disso, não há consenso quanto a se a solução é ter plena consciência dos seus preconceitos – ou se isso seria ainda pior.

É um quadro confuso. Mas muitos acadêmicos dizem que há outras formas de identificar preconceito implícito.

“O IAT não é o único paradigma em que observamos preconceitos não intencionais, então mesmo que achemos que o IAT é uma medição ruim do preconceito implícito, isso não significa que o fenômeno não seja real”, diz Sophie Stammers, professora da Universidade de Birmingham.

Há estudos que mostram, por exemplo, que empregadores responderam mais positivamente a currículos com nomes masculinos do que femininos ou com nomes tipicamente brancos em relação a negros.

Enquanto isso, Sarah Jane Leslie, professora de Filosofia da Universidade de Princeton, fez algumas pesquisas fascinantes sobre por que algumas disciplinas acadêmicas – como matemática, física e sua própria área (filosofia) têm tão poucas mulheres.

A sua explicação é que algumas disciplinas – como a filosofia – enfatizam a necessidade de genialidade bruta para ser bem-sucedido, enquanto outras – como história – tendem a dar mais importância a dedicação e trabalho duro.

“Já que há estereótipos culturais que ligam mais homens que mulheres à genialidade bruta, previmos e de fato descobrimos que essas disciplinas que enfatizam a genialidade tinham muito menos mulheres”, diz Leslie. Na cultura popular, é difícil pensar em uma equivalente a Sherlock Holmes, por exemplo, já que as deduções impressionantes do detetitve seriam um produto de sua genialidade singular.

Quão cedo em nossas vidas absorvemos esses estereótipos culturais? Sarah Jane Leslie conduziu um estudo fascinante com crianças.

Os pesquisadores comentam, com meninos e meninas, a respeito de uma pessoa muito inteligente sem dar nenhuma pista do gênero dela. Em seguida, quatro fotos são apresentadas, de dois homens e duas mulheres, e as crianças têm que adivinhar quem é a pessoa inteligente. Aos cinco anos, tanto meninos quanto meninas demonstraram uma tendência maior a escolher um homem do que uma mulher.

Crianças

Em estudo em escolas, crianças precisavam adivinhar o gênero de uma pessoa descrita como “muito inteligente” (Foto: Getty Images)

“Com seis anos, as garotas têm uma tendência bem menor em relação aos garotos a pensar que uma pessoa do seu gênero pode ser alguém tão, tão inteligente”, diz Leslie.

A afirmação de que a maioria de nós temos vários preconceitos implícitos é parte de uma explosão de pesquisas sobre a irracionalidade nos nossos pensamentos, decisões e crenças. Nós não somos as criaturas lógicas e sistemáticas que imaginamos.

As descobertas do IAT, e de pequisas em preconceito implícito em geral, são sem sombra de dúvidas importantes. Mas ainda há muitas coisas que não sabemos. Ainda precisamos de muitas pesquisas rigorosas sobre como preconceitos implícitos interagem com comportamentos e como eles podem ser superados.

Duas semanas após fazer o teste IAT pela primeira vez, eu o refiz. O resultado mais uma vez apontou para uma inclinação, mas dessa vez a favor de pessoas negras. Então fiquei ainda mais confuso. Ainda não sei se sou racista ou não.

bbc-v2

Comentários

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA