10 explosivas alegações do livro que Trump considera difamatório

(Foto: Getty Images)

WASHINGTON – Donald Trump estava “atordoado” com sua vitória na eleição, não gostou da sua posse e achou a Casa Branca amedrontadora.

Essas são algumas das alegações de um livro que será lançado em 9 de janeiro, Fire and Fury: Inside the Trump White House (Fogo e Fúria: Por dentro da Casa Branca de Trump, em tradução livre), de autoria do jornalista Michael Wolff.

O autor diz feito entrevistas com mais de 200 pessoas, entre integrantes da campanha de Trump e da Casa Branca.

Um dos entrevistados é o ex-assessor de Trump Steve Bannon, que foi demitido em agosto. Uma das mais fortes declarações de Bannon é a de que foi “traidora” e “antipatriótica” a conversa entre o filho do presidente americano, Donald Trump Jr, com uma informante russa durante a campanha de 2016.

Trump respondeu à acusação dizendo que Bannon “perdeu a cabeça”.

A Casa Branca, por meio de sua porta-voz, Sarah Sanders, disse que o livro está cheio de relatos falsos e equivocados. Trump também já ameaçou processar a editora Henry Holt & Co. Em carta enviada à editora, ele diz que o conteúdo do livro é difamatório e malicioso.

O livro também fala das supostas aspirações presidenciais de Ivanka Trump, filha de Trump, e afirma que o presidente americano admira e respeita o magnata da comunicação Rupert Murdoch.

Wolff diz ter ocupado “algo como um assento semipermanente no sofá da ala oeste (da Casa Branca)” após a posse de Trump para conseguir ter um olhar bem próximo do governo.

Aqui listamos dez das principais alegações do livro, com comentários do repórter da BBC Anthony Zurcher.

1. ‘Trump atordoado com sua vitória’

Em reportagem para a NYMag adaptado para seu livro, Wolff descreve o espanto – e o desânimo – entre os membros da campanha de Trump com a vitória dele em novembro de 2016.

Logo após as 20h da noite da eleição, quando a inesperada tendência – Trump poderia mesmo ganhar – parecia se confirmar, Don Jr contou a um amigo que seu pai, ou DJT, como ele o chama, parecia ter visto um fantasma. Melania foi às lágrimas – e não de alegria. Havia, no intervalo de menos de uma hora, segundo observa Steve Bannon, um atordoado Trump se transformando em um incrédulo Trump e depois em um aterrorizado Trump. Mas ainda viria a transformação final: De repente, Donald Trump virou um homem que acreditou que ele merecia ser, e que era totalmente capaz de ser, o presidente dos EUA.”

Anthony Zurcher: A afirmação é bastante diferente do que tem sido recitado pelo círculo de Trump desde a noite da eleição. Ainda que ativistas da campanha – pelo menos aqueles menos dedicados – talvez estivessem preparados para uma derrota, Trump e seus aliados próximos sempre afirmaram terem acreditado em sua vitória. Esse “Trump aterrorizado” nunca foi mencionado.

2. ‘Trump irritado na posse’

Wolff escreve:

Trump não aproveitou sua própria posse. Ele estava irritado pelo fato de pessoas VIP terem esnobado o evento, insatisfeito com a estadia na Blair House (palácio em Washington dedicado a receber convidados do presidente americano) e claramente brigara com sua mulher, que parecia à beira das lágrimas. Ao longo do dia, ele esteve com o que alguns ao seu redor chamaram de sua cara de golfe: irritado e bravo, encurvado, braços balançando, sobrancelhas franzidas, lábios cerrados.

O escritório da primeira-dama rejeita as afirmações. A diretora de comunicação Stephanie Grisham disse em um comunicado: “A senhora Trump apoiou o marido na decisão dele de concorrer à Presidência e, na realidade, o encorajou a fazer isso. Ela estava confiante que ele iria ganhar e ficou muito feliz quando ele ganhou”.

Anthony Zurcher: Essas palavras contam a mesma história que o vídeo que viralizou, de uma Melania com cara fechada forçando um sorriso quando o presidente olha para ela. Isso também explicaria por que a Casa Branca insistiu tanto, posteriormente, em dizer que a posse de Trump teria tido um público maior que a de Obama.

3. Trump ‘com medo’ na Casa Branca

Wolff escreve:

Trump, na verdade, achou a Casa Branca irritante e até um pouco assustadora. Ele saiu do próprio quarto – a primeira vez desde Kennedy que um casal presidencial dorme em quartos separados. Nos primeiros dias, ele pediu duas televisões além da que já estava lá, e uma tranca na porta, causando um certo impasse com o Seviço Secreto, que insistia em ter acesso ao quarto.

Anthony Zurcher: Por muito tempo de sua vida adulta, Trump viveu de acordo com suas próprias regras, como um magnata do ramo imobiliário cuja fortuna permitiu a ele seus caprichos e idiossincrasias em sua acomodação. Ajustar-se à Casa Branca – a qual Bill Clinton uma vez se referiu como “a joia da coroa do sistema penitenciário” e Harry Truman chamou de “a grande prisão branca” – deve ter sido um choque enorme.

4. Encontro de Donald Trump Jr foi ‘traição’

Segundo o livro, o ex-estrategista-chefe da Casa Branca Steve Bannon descreve como “traição” o encontro em junho de 2016 entre Donald Trump Jr, filho de Trump, e um grupo de russos que teria oferecido informações prejudiciais à campanha de Hillary Clinton.

Wolff escreve que Bannon contou a ele sobre a reunião:

“Esses três caras experientes da campanha acharam que era uma boa ideia encontrar-se com (enviados de) um governo estrangeiro dentro da Trump Tower, na sala de conferência do 25º andar – sem advogados. Eles não tinham nenhum advogado. Mesmo que você pense que isso não foi traição, ou antipatriótico, eu acho que foi tudo isso; você deveria ter chamado o FBI imediatamente.”

Bannon supostamente falou que a investigação do Departamento de Justiça sobre as conexões entre a campanha de Trump e Moscou iriam focar a lavagem de dinheiro, acrescentando: “Eles vão quebrar Don Jr feito um ovo em rede nacional de TV”.

Anthony Zurcher: Em poucas frases, Bannon consegue detonar uma bomba nas tentativas da Casa Branca de minimizar a importância daquele fatídico encontro em junho na Trump Tower e em desvalorizar a investigação do promotor Robert Mueller, definindo-a como partidária e “caça às bruxas”. A avaliação de Bannon é de que a situação teve gravidade e, além disso, foi conduzida de maneira inconsequente.

5. ‘Ivanka quer ser presidente’

Ivanka, filha de Trump, e seu marido, Jared Kushner, aparentemente fizeram um acordo decidindo que ela poderá concorrer à Presidência no futuro, de acordo com o livro de Wolff:

Ivanka e Donald Trump
Trump afaga a barriga da filha Ivanka, que à epoca estava grávida, durante a campanha de 2016 (Foto: Getty Images)

“Ponderando o risco e a recompensa, Jared e Ivanka decidiram aceitar cargos na ala oeste (considerada o centro do poder) da Casa Branca a despeito de serem advertidos contra isso por quase todo mundo que conhecem. Foi uma decisão conjunta do casal e, de alguma maneira, um trabalho conjunto. Entre eles mesmos, os dois fizeram um acordo sincero: se em algum momento no futuro a oportunidade surgir, ela seria a pessoa a concorrer para presidente. A primeira mulher presidente, Ivanka divertiu-se, não seria Hillary Clinton, seria Ivanka Trump. Bannon, que cunhou o termo ‘Jarvanka’ (junção do nome do casal), agora ainda mais em uso na Casa Branca, ficou horrorizado quando o acordo do casal foi relatado a ele.

Anthony Zurcher: A disputa entre Bannon e “Jarvanka” não era segredo e certamente não surpreende. De certa maneira, o casal personificou tudo a que Bannon se opunha: o elitismo e os privilégios. E, além disso, o casal tinha acesso irrestrito a Trump e – segundo esse novo livro diz – abrigava esperanças dinásticas.

6. Ivanka ‘zombava do penteado do pai’

A “primeira-filha” americana fazia graça da suposta “cirurgia de redução do couro cabeludo” do pai, segundo o livro:

“Ela tratava o pai com um grau de desapego, até ironia, chegando ao ponto de fazer piada com o penteado dele para os outros. Ela com frequência descrevia o mecanismo por trás disso para os amigos: uma cabeça totalmente limpa – uma ilha existente após a cirurgia de redução do couro cabeludo – cercada por um círculo peludo de cabelo em volta dos lados e da frente, em que todas as pontas se unem no centro e são então varridas para trás e presas graças a um spray fixador. A cor, ela destacava para efeito cômico, era de um produto chamado Just for Men (apenas para homens) – quanto mais ele fosse deixado no cabelo, mais escuro ficava. A impaciência resultou na cor de cabelo loiro-laranja de Trump.”

Anthony Zurcher: Não seria particularmente surpreendente se essa fosse uma das anedotas que o senhor Trump acha mais irritante. O presidente tem orgulho de seu cabelo e certa vez deixou o apresentador Jimmy Fallon mexer nele para provar que é cabelo de verdade. Em diasde ventania, Trump normalmente usa um chapéu – daí a origem do boné (com a inscrição) Faça a América Grande de Novo – para evitar problemas com o penteado. O cabelo é tão importante à marca Trump quanto os grandes hotéis e as escadas-rolantes douradas.

7. ‘A Casa Branca sem prioridades’

Katie Walsh, então chefe de gabinete da Casa Branca, perguntou a Kushner, genro de Trump e um de seus conselheiros, o que seu governo queria conquistar. Segundo o livro, Kushner não tinha uma resposta.

“‘Cite três coisas nas quais o presidente quer focar’, ela (Katie Walsh) perguntou. ‘Quais são as três prioridades da Casa Branca?’ Essa era a pergunta mais básica imaginável – uma que qualquer candidato presidencial qualificado teria respondido longamente antes de chegar ao número 1600 da Avenida Pensilvânia (endereço da Casa Branca). Passadas seis semanas da Presidência de Trump, Kushner estava totalmente sem resposta. ‘Sim’, ele disse a Walsh. ‘Nós provavelmente deveríamos ter tido essa conversa’.”

Anthony Zurcher: Sempre leva um período de tempo até um governo recém-iniciado encontrar seu caminho. No caso de Trump, a situação foi particularmente grave. após uma campanha focada em questões como reforçar as fronteiras, renegociar acordos comerciais, reduzir impostos e anular o Obamacare, priorizar algo era claramente um desafio. Uma vez na Casa Branca, ele permitiu ao Congresso dar início à reforma do sistema de saúde, e as dificuldades para alcançar esse objetivo assombraram sua Presidência por quase um ano.

8. ‘A admiração de Trump por Murdoch’

Wolff, que escreveu a biografia de Rupert Murdoch, descreve a admiração de Trump pelo magnata da comunicação:

“Rupert Murdoch, que prometeu fazer uma visita ao presidente eleito, estava atrasado. Quando alguns dos convidados deram mostras de que iriam embora, um cada vez mais agitado Trump assegurou que Rupert estava a caminho. ‘Ele é um dos maiores, o último dos grandes’, disse Trump. ‘Vocês têm que ficar para vê-lo.’ Sem compreender que ele era agora o homem mais poderoso do mundo, Trump continuava tentando fortemente bajular um magnata da mídia que já o havia desdenhado e tratado-o como um charlatão e um bobo.”

Anthony Zurcher: Durante a campanha, Trump teve vários embates com a Fox News, emissora de Murdoch: brigou com uma apresentadora, boicotou o canal e ausentou-se de um debate. O presidente, no entanto, é um dos maiores fãs da Fox News – e a rede tornou-se uma de suas maiores defensoras desde sua posse.

9. Murdoch chama Trump de ‘idiota’

Mas a admiração entre Trump e Murdoch não era mútua, segundo o relato de Wolff a respeito de um telefonema no qual Murdoch e Trump teriam conversado sobre uma reunião do presidente com executivos do Vale do Silício.

Trump teria dito a Murdoch:

“‘Esses caras realmente precisam da minha ajuda. Obama não foi muito favorável a eles, muitas regulações. Essa é realmente uma oportunidade para eu ajudá-los.”

A resposta de Murdoch teria sido: ‘Donald, por oito anos esse caras tiveram o Obama no bolso deles. Eles praticamente governaram. Eles não precisam da sua ajuda.”

Segundo Wolff, “Murdoch sugeriu que uma abordagem liberal aos vistos H-1B (exigido para contratar especialistas de áreas como informática), o qual abriria as portas da América para um grupo seleto de imigrantes, seria de difícil conciliação com as promessas de construir um muro (entre os EUA e o México) e fechar as fronteiras. Mas Trump pareceu despreocupado, assegurando a Murdoch: ‘Nós vamos achar uma saída’. ‘Que idiota do c…’, disse Murdoch ao desligar o telefone.”

Anthony Zurcher: Há, certas vezes, uma desconexão entre a retórica anti-imigração de Trump e seus atos como homem de negócios, uma vez que suas companhias muitas vezes usam mão de obra imigrante. Talvez o presidente-eleito estivesse refletindo sua sensibilidade dos negócios. Ou talvez, nesse caso, ele estivesse simplesmente ecoando a opinião do último grupo de pessoas com quem havia se encontrado – uma crítica que tem sido lançada contra ele em mais de uma ocasião.

10. ‘Flynn sabia que Rússia era um problema’

O ex-conselheiro nacional de segurança dos Estados Unidos Michael Flynn sabia que o fato de ter recebido, em 2015, dinheiro de uma emissora estatal russa para dar uma palestra em Moscou poderia se voltar contra ele, segundo o livro.

Wolff escreve que, antes da eleição de Trump, Flynn “foi informado por amigos que não fora uma boa ideia ter aceitado US$ 45 mil dos russos para uma palestra. ‘Bem, isso só seria um problema se ele (Trump) ganhasse’, Flynn teria assegurado a eles. Flynn é alvo atualmente de uma investigação especial do Departamento de Justiça dos EUA.

Anthony Zurcher: Flynn era um dos integrantes da campanha de Trump cujos negócios prévios não foram alvo de escrutínio suficiente. Se Trump tivesse sido derrotado, isso provavelmente não teria importado. Mas a vitória do magnata acaba dando importância a essas alegações.